12 maio 2017

Dança comigo?

Quando entrei por aquela porta vermelha, tive a sensação de que talvez valha a pena sair um pouco da zona de conforto, e do vídeo game também. Senti um calafrio gostoso na espinha, como se entrasse num lugar totalmente aleatório. Eu não fazia ideia de quem eram aquelas pessoas. Fui sozinho. Precisava fazer alguma coisa, nem que fosse para tomar um porre e depois acabar com a cabeça girando e uma ressaca horrível no outro dia de manhã. Talvez eu esquecesse aquilo que tanto tento, de fato, esquecer. Mas então eu vi aqueles grandes olhos castanhos me encarando. Retribuí com um sorriso de canto e torci para não estar imaginando coisas.
Leia ouvindo Olly Murs - Dance With Me Tonight
Comecei a caminhar em sua direção calmamente, assim, poderia disfarçar e ir embora caso desse tudo errado. Pensei em começar uma boa conversa, talvez chamá-la para dançar ou perguntar se costumava ir ali com frequência. Que idiota! Isso não é necessariamente algo para se perguntar, há tantos assuntos no mundo.

- Hey, será que você gostaria de dançar?

E ela me puxou para o meio da pista.

Não tive nem mesmo chance de repensar minhas escolhas, simplesmente me deixei levar pelo ritmo da música e dos movimentos daquela garota. Eu parecia perdido, mas ela era incrível e tinha total confiança do que estava fazendo. Não conseguia tirar os olhos dela e percebi que isso era bastante recíproco. A puxei para perto, com receio de levar um tapa na cara, mas não, ela se entregou. Um beijo lento, com o choque de dois lábios quentes e algum desejo, muito mais ofegante do que estava esperando. Uma leve mordida no final me fez entender que não era brincadeira, o jogo dela era sério. Eu a encarei por alguns minutos até que vi um sorriso malicioso em sua boca. O devolvi com prazer.

- Talvez queira ir para outro lugar...

Sussurrei baixo, mas fui surpreendido. Segurei em sua mão e subi as escadas, passando por algumas pessoas já caídas nos degraus em estado deplorável. Mas ela nem mesmo me deixou chegar ao topo, me puxou com força e quando dei por mim já estávamos em uma sala. Seu corpo estava desejando o meu tanto quanto o meu desejava o dela. A empurrei na parede e segurei seus braços mais no alto, a beijando novamente, com mais intensidade, mais malícia, mais tesão. Dei um leve chupão em seu lábio inferior.

- Dança comigo essa noite, morena?

10 maio 2017

Um desabafo sobre amadurecimento

Semana passada completei 21 anos. Até então não tinha parado para pensar sobre o assunto, mas li recentemente um texto sobre amadurecimento e me perdi em um turbilhão de sensações esquisitas. Sempre que alguém pergunta minha idade, a primeira coisa que vem na minha cabeça é quando tinha 16 anos, ou seja, essa geralmente é a minha resposta, mas aí eu volto à realidade e me dou conta de que não, não tenho mais 16, 17 ou 18. Tenho 21. Só que continua sendo estranhamente igual, porque minhas escolhas ainda continuam sendo as mesmas daquela época. Meus gostos não mudaram e ainda paro para cantar amendobobo do Bob Esponja.
Lembro que há uns cinco anos atrás, quando estava terminando o Ensino Médio e me preparando psicologicamente para a faculdade, levei um choque de realidade e entrei em uma crise existencial imensa. Eu não sabia o que fazer dali em diante, não fazia ideia de que curso escolher, não tinha segurança sobre um emprego bacana ou sobre meus relacionamentos. Eu me sentia completamente perdida, e ainda me sinto, para ser sincera. Era como se eu estivesse em um julgamento e fosse obrigada a optar por um caminho. Então prestei vestibular, me candidatei para algumas vagas de estágio, comecei a pensar sobre o meu futuro, sobre as pessoas que me acompanhariam a partir dali.

Mas a vida gosta de pregar uma peça, não é mesmo?

Não passei no vestibular, não consegui um estágio, acabei entrando para uma faculdade particular e para um curso de comunicação. Logo eu, a pessoa mais tímida do mundo! Também perdi inúmeras pessoas que eram próximas, passei a ter uma vida noturna da qual não estava acostumada e a ter responsabilidades que não queria que fizessem parte do meu dia a dia. 

Isso tudo me mudou muito.

Eu passei a ser a pessoa mais falante possível e aprendi a puxar assunto sobre qualquer coisa que se possa imaginar. Meu namoro acabou e precisei de um tempo para me redescobrir como pessoa. Conheci pessoas incríveis que mudaram minhas noites de aulas chatas e incansáveis. Perdi mais alguns "amigos". Consegui um estágio na área que resultou em uma recente contratação. Encontrei novas pessoas que poderiam render relacionamentos duradouros, mas não renderam. Mudei meu estilo e mudei de novo. 

A verdade é que a gente nunca está preparado para mudanças, mas quando elas acontecem por conta própria, acabamos nos adaptando. E sabe do que mais? Isso acaba sendo incrível. Gera um sentimento estranho de querer mais, de torcer para que haja novas oportunidades para trocar as coisas de lugar. Só que isso nem sempre é o suficiente para mudar a nossa essência.

Eu ainda fico vermelha quando vejo alguém me encarando. Ainda me enrolo toda com as palavras quando perco o foco. Ainda não aprendi a fazer uma coisa de cada vez. Ainda sou uma boa CDF que detesta tirar nota baixa. Ainda continuo sem pegar recuperação. Ainda não aprendi a gostar de balada. Ainda prefiro minha solidão à companhia de outra pessoa só por comodismo. Ainda gosto de ver filmes clichês durante o fim de semana. Ainda odeio trabalhos em grupo.

Mas não sei se isso chega aos pés do quanto evolui.

Não tenho mais vergonha de apresentar trabalhos na frente de uma multidão. Aprendi a ter coragem de falar o que sinto, mesmo que isso possa magoar outra pessoa. Aprendi a ter atitude e lutar por aquilo que tanto quero. Aprendi que sempre vou precisar de um tempo só meu, porque o mundo é um lugar extremamente carregado. Finalmente entendi que respeitar o outro é muito mais fácil e caloroso do que sair por aí julgando. Aprendi a escutar funk e sertanejo. 

Eu nunca imaginei nenhuma dessas coisas. Sempre me vi como uma pessoa recatada, mas aí aconteceu algo bizarro no meio do caminho e me tornei isso. Tenho orgulho, mas ao mesmo tempo tenho medo. Tenho medo de me tornar uma adulta chata e hipócrita que nunca está contente com nada. Eu quero mais do que isso, mas sinto que não sei se vou ser capaz de acompanhar meu próprio ritmo. Tenho muito medo de envelhecer, não fisicamente, mas mentalmente. Tenho medo que um dia, ao me deparar com Bob Esponja na televisão, sinta vontade de trocar de canal. 

Sei lá. 

O mundo é uma caixinha de surpresas, eu sei disso. Só espero, de dedinhos cruzados, para que seja uma surpresa sensacional, porque não quero ser o que almejo, quero me surpreender comigo mesma e poder pensar "Caraca! Olha como eu mudei". Como boa taurina que sou, nunca fui muito fã de mudanças, mas ultimamente ando me agarrando em inúmeras delas.

08 maio 2017

O Canto Mais Escuro da Floresta

Quem me conhece sabe o quanto eu sou apaixonada por fantasia. Não chego ao ponto de delirar, mas vivo criando histórias na minha cabeça que envolvem mundos místicos e um punhado de surrealismo. É justamente por causa desse amor que fiquei mega empolgada quando a Galera Record me enviou um dos seus lançamentos. O Canto Mais Escuro da Floresta chegou aqui em casa dentro de uma caixinha linda, cheia de pétalas e com um potinho de essência. Só isso já me ganhou por completo, mas aí eu descobri a história do mundo das fadas e ele foi parar na minha listinha de melhores livros do ano. Sabe quando você termina de ler um livro e, quando fecha para guardar, fica abraçada nele com aquela sensação de "isso me fez um pouquinho mais feliz"?
Em Fairfold as coisas são um pouco diferentes. Enquanto que as grandes cidades são divididas em prédios e seres humanos, em Fairfold os moradores locais precisam se acostumar com a presença constante de seres místicos que vivem na floresta. Mas não se engane. Turistas não são bem-vindos. Aqueles que se arriscaram em troca de uma boa dose de magia acabaram desaparecendo sem deixar rastros. O fato é que há um trato entre os moradores e O Povo. Eles se respeitam, mas isso não significa que não possam pregar peças nos humanos descuidados que procuram por aventura. Hazel está incluída no grupo. Há um tempo atrás, quando ainda era pequena, vivia explorando a floresta e lidando com monstros de outra dimensão, ela resolveu fazer um acordo.

Título: O Canto Mais Escuro da Floresta
Autor: Holly Black
Páginas: 294 páginas
Editora: Galera Record
❤ Livro cedido em parceria com a editora
Hazel e seu irmão, Ben, moram em uma cidade onde humanos e fadas convivem juntos. A magia aparentemente inofensiva desses seres atrai turistas de todas as partes, que querem ver de perto as maravilhas do lugar e, principalmente, o garoto de chifres e orelhas pontudas que descansa em um caixão de vidro. Hazel e Ben eram fascinados pelo garoto quando crianças, mas, à medida que crescem, as histórias e teorias que inventavam perdem o encanto. Eles sabem que o garoto de chifres nunca acordará... Até que um dia ele acorda. Agora, os irmãos precisam se tornar os heróis que fingiam ser e desvendar os mistérios que envolvem o príncipe com chifres.
Hazel e Ben cresceram ouvindo os contos sobre a floresta, mas nunca tiveram medo de explorar por entre árvores e arbustos, principalmente quando se trata do garoto de chifres. Ambos são apaixonados por ele e sempre se confessaram como se o menino fosse capaz de escutá-los e aconselhá-los sobre os mais diversos assuntos adolescentes. Todos os moradores o conhecem e inúmeros turistas chegam até o local somente para admirar de perto a beleza do rapaz, mas ninguém espera que o caixão seja quebrado e a maldição seja rompida de um dia para o outro. Mas acontece. E Hazel tem uma ideia de quem foi o responsável por isso. 
Apesar de ter feito um acordo com os seres do povo, Hazel nunca imaginou que algum dia isso iria vir à tona para atormentá-la. Ela também prometeu ao irmão que ficaria longe da floresta, mas não consegue cumprir com o acordo e o envolve no mistério quando descobre que coisas estranhas estão acontecendo com os moradores locais. Além disso, ela anda tendo sonhos estranhos que se parecem muito reais e precisa descobrir o quanto antes sobre o significado de tudo isso. Assim, disposta a fazer o que for possível, ela e Ben vão atrás do garoto de chifres para conseguir alguma pista. No entanto, o garoto já está esperando por eles.

Holly Black fez um trabalho incrível em O Canto Mais Escuro da Floresta. Além de retratar com perfeição detalhes sórdidos do mundo das fadas, ela transforma o folclore e as lendas urbanas em realidade. Apesar dos vinte e poucos anos, confesso que ainda acredito que estejamos vivendo em um mundo repleto de seres místicos, apenas não temos a fé necessária para enxergá-los por aí. Em Fairfold não é assim. Lá, as pessoas conhecem a própria cultura e sabem com quem dividem o espaço. Elas acreditam em fadas, globins, bruxas e inúmeros outros seres que acabam por se tornar reais. E não há como dizer o contrário, porque toda a narração da história é muito pessoal, muito íntima. 
Hazel e Ben são personagens bem construídos que fazem o próprio leitor acreditar no que eles acreditam. Eu fui influenciada o tempo inteiro pela opinião dos dois, e mesmo quando eram distintas, me sentia dividida entre o que estava acontecendo e o que poderia acontecer. Eu não sabia em quem confiar ou em que parte eles tinham razão, assim como também me senti dividida com relação à Severin, o garoto dos chifres, pois ele se mostra distante em um primeiro momento, mas há toda uma reviravolta inesperada que muda o rumo da história. Não sei exatamente como descrever as sensações que tive com o decorrer da leitura, mas posso afirmar que não tenho motivos para reclamar de alguma coisa. Foi tudo muito bem amarrado.

Uma das partes que mais gostei foi quando Jack, melhor amigo de Ben, que nasceu no povo e foi viver com os humanos, leva Hazel para uma festa na floresta com os seres místicos. Eu me encantei logo de cara por tudo, por toda cultura da qual fui apresentada e pela forma como eles se entregaram por inteiros à magia. É surreal ler algo sobre o assunto, pois, por vezes, já me peguei imaginando como poderia ser um mundo assim, e finalmente tive a chance de concretizar meus pensamentos obscuros.
Agora, quanto a diagramação, ficou um encanto, exatamente como deveria ser. As folhas são simples e não há nada demais, mas a capa ganha toda atenção necessária. Os capítulos são pequenos e a letra tem um tamanho bem agradável, apesar de eu questionar a escolha da fonte. Não encontrei muitos quotes, o que me incomodou um pouco, pois gosto dessa sensação de ter frases com as quais me apegar, mas não tenho motivos para tornar o livro ruim por causa disso. Aliás, só tenho a agradecer pela experiência de abrir a caixa e sentir aquele cheirinho de natureza. Isso me proporcionou uma leitura diferente, mais sensorial.

Eu amei. É isso. Amei a forma como a história foi contada, amei os personagens, amei a ligação entre eles, amei descobrir um pouco mais sobre o mundo das fadas, amei entrar em uma festa surreal e beber vinho das fadas, amei os momentos girl power da Hazel. A Holly é, inclusive, autora de As Crônicas de Spiderwick, portanto, quem gostou do livro ou adora uma fantasia e anda de mãos dadas com a imaginação vai, com certeza, adorar se envolver com a floresta de Fairfold. 
Design e conteúdo por Kelly Mathies | Tecnologia do Blogger | Com amor ❤