19 setembro 2017

Quem sabe alguém fica, um dia

Eu costumo comparar minha vida a uma estação de trem, uma rodoviária, talvez. Um aeroporto. Há desembarque e embarque o tempo inteiro, com pessoas correndo com pressa para não perderem o próximo voo. Há bagagens perdidas e reclamações na central de atendimento. Tem gente que vem com duas malas carregadas, fica por um tempo, faz morada, depois desaparece. Nunca entendi porque fazemos essa comparação, mas um dia alguém me disse com convicção que jamais estaremos preparados para alguém que fique. Talvez isso seja verdade, ou não, ainda quero poder descobrir um dia. Ainda quero poder chegar de mansinho em alguém e lhe perguntar qual é o próximo destino, e torcer para que me responda que não sabe. Que não faz ideia. Que gostaria de ficar.
Sempre que alguém chega apressado, me sinto um pouco dona da verdade e vou direto ao ponto. Não gosto de correrias na minha estação, prefiro a calmaria, a leveza de se ter a certeza para que direção seguir. Parece estranho, e doí, machuca de forma inconfundível, mas entendo aqueles que preferem ir embora. É uma conspiração de sentimentos, comportamentos, têm palavras espalhadas por todos os lados, cartazes com dizeres "eu não sou uma estação de verdade, sabe disso?". Não sabem. Nunca souberam. Tirando aquelas pessoas com as quais nunca aprendi a lidar, sou a mais complicada de que tenho conhecimento. Uma contradição ambulante. Vivo com uma coisa na cabeça e no final não digo nada a respeito. Amoleço quando deveria ser de ferro. Esboço um sorriso contagiante quando as lágrimas tomam conta.

Têm dias que por mais confiante que seja, me sinto inútil, como se colocasse uma capa da invisibilidade e não fizesse diferença alguma não estar presente. Têm dias que a grosseria toma conta, mas é só um pedido de colo, de carinho. Têm dias que o mau humor prevalece, mas uma simples brincadeira boba pode ser fatal. Têm dias que não quero absolutamente ninguém por perto. Mas, acima de tudo, têm dias que só quero ser eu, brincar com a minha ironia, dançar as músicas bobas que tocam no rádio, assistir um filme que já gravei todas as falas, deixar de lado a armadura. Só que é difícil encontrar alguém que saiba me decifrar. Que tenha paciência para me ter por perto.

Confesso que já perdi o vidro à prova de balas que tinha ao redor, me atinjo por qualquer coisa, qualquer palavra mais dura. Tem gente que me encontra na rua de vez em quando, que não me vê há um bom tempo, mas faz questão de deixar claro que continuo a mesma.

Não!

Eu sou mutável, constantemente. Eu perdi as garras, perdi a razão, quero tanto que fique tudo bem com todo mundo, que simplesmente desisti de estar certa em alguma coisa. "Entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil", e é isso que tenho tentado fazer. Nem sempre consigo botar em prática, tem vezes que perco o controle, mas volto atrás. Sempre. Se tem uma coisa que aprendi nesses vinte anos, é que amanhã pode ser tarde de mais.

Então, quem sabe alguém fique, um dia. Talvez alguém entenda meus motivos e não me peça explicações para aquilo que não sei responder. Talvez alguém me abrace apertado e diga "Olha, eu sei que é difícil essa coisa de amar, mas eu tô aqui, também não sei nada sobre isso", porque, de fato, ninguém realmente sabe.

18 comentários:

  1. Ke, que lindeza de entrega e de lembrete sobre o quanto maturidade é não desistir de sentir e o quanto liberdade é saber ao que se prende, ainda que mude para continuar a mesma. A metáfora de base desse seu destrinchar é tão fundamental, até porque, todo mundo deve viajar até parar de volta na estação, mas isso não significa que essa viagem não possa ser, a partir de determinado momento, sempre levando o outro como bagagem ou como mais uma mão: para estar ali, enlaçada na própria (não é?). Maravilhoso!

    www.semquases.com

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    1. A gente vive por entre estações, não é? Vamos de um lado para o outro, querendo encontrar um lugar bacana, uma pousada confortável. E não digo no sentido literal da palavra, mas, sim, de coração. Sempre guardamos um pouco do outro na gente, mas carregamos muito mais de nós mesmos por aí. Fico muito feliz em saber que gostou do texto e se identificou com a palavras ♥

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  2. Esse texto tocou meu coração e em certos trechos eu me identifiquei, principalmente a parte de ser mutável, constantemente. Pois sou assim, muitas pessoas dizem que não mudei nada, mas nem se dão ao trabalho de enxergar de verdade, de me conhecer novamente. É triste, mas fazer o quê.

    Beijos,
    Blog Gaby Dahmer

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    1. Existem pessoas que não possuem a mínima paciência de conhecer o outro, sentar em um banquinho e enxergar além do exterior. Tenho certeza de que você cresceu de todas as formas, e que hoje é quem é por todos os caminhos e estações que percorreu até aqui ♥

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  3. Me identifiquei bastante com a analogia que você faz no texto! É complicado viver com a espera de que alguém um dia vai de fato ficar, que alguém quer estar ali e não em outro lugar. As pessoas costumam passar muito rapidamente pelas nossas vidas, os relacionamentos estão cada vez mais frágeis (de amor, de amizade). Mas nos resta saber que somos únicos, nos amar acima de qualquer expectativa e esperar que um dia as coisas realmente aconteçam da forma que melhor for. Amei o texto, como sempre <3

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    1. Devemos, sim, esperar o melhor sempre dos outros, mas também precisamos ter o cuidado de saber exatamente quem está para fazer bagunça e quem quer aconchego. No fim das contas, descobrimos de uma forma ou outra rs. Vivemos em tempos líquidos, não é? É cada vez mais comum nos depararmos com relações mutáveis. Um dia ainda vamos nos encontrar nisso ♥

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  4. Tão lindo, tão íntimo, tão profundo <3

    www.verifiqueapagina.com.br

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  5. Se você me conhecesse não me definiria tão bem. Cada palavra parecia um espelho em que me via em detalhes.
    Não é fácil ser estação, olhar pessoas indo e vindo, levando e deixando coisas, mas não ter quem fique. Porque as vezes, só as vezes, é tudo que a gente quer!

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    1. Somos eternas estações, isso é um fato que dificilmente pode ser mudado. Há pessoas que vão se aconchegar de vez em quando, mas ficar mesmo, pra valer, só com o tempo.

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  6. Só pelo título já fiquei apaixonada pelo texto. Me identifiquei com o que você escreveu
    "Não gosto de correrias na minha estação, prefiro a calmaria, a leveza de se ter a certeza para que direção seguir." ❤

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    1. Ah, que delícia saber disso ♥ Muito obrigada.

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  7. Uauuu, Kelly! Que texto foi esse? Simplesmente é impossível cada mulher do planeta não se identificar, nem que seja um pouquinho. As analogias foram certeiras.
    Beijos!
    Gatita&Cia.

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    1. Que bom saber disso, moça ♥ Fico bem feliz por ter se identificado, ao menos um pouquinho, com o conteúdo do texto.

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  8. Que texto lindo e tocante!
    As vezes as pessoas tendem mesmo a passar em nossas vidas como se estivessem atrasadas para a próxima conexão, saem sem "apreciar o momento" ou dizer "tchau, preciso correr senão não consigo seguir meu destino". As vezes somos nós a fazer isso.
    Gosto muito de suas produções e textos, e seu blog é lindo.
    Beijinhos ♥

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    1. Muito obrigada pelas palavras de carinho ♥ É bem isso, às vezes nos pegamos sendo tão apressados quanto os outros, mas dói do mesmo jeito, com a mesma intensidade.

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  9. Amei seu texto. Adoro ver esse tipo de dissertação e sentimentos porque é algo que eu simplesmente não sei fazer. E me identifiquei muito com o seu. Adorei a analogia com estações. Não apenas sobre relacionamentos amorosos. Mas com amigos já passei muito por pessoas indo e vindo. E eu tenho algo de não ter uma estação, mas sim um motel de beira de estrada, porque eu tenho algo que as vezes mesmo conhecendo pouco eu faço as pessoas ficarem bastante, mesmo que custe descobrir quem elas são de verdade e elas irem. Felizmente. Sempre tem aqueles que vem todo feriado, ou que vem passar umas férias e mesmo longe sei que sempre voltam. E tem, digamos assim "os funcionários" que estão quase todo dia rsrs. Só preciso aprender a ser mais gentil, menos explosiva. Imagino que seja por isso que alguns não fiquem.

    Bites!

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    1. Que bom que sua estação é mais movimentada, prova de que há carinho e aconchego sempre. Imagino que alguns não fiquem porque não é o lugar deles, estão apenas de passagem e é assim que tem de ser. Não há nada que mude essa correria de passageiros. Mas fico bem feliz que tenha curtido o texto e a analogia ♥

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