28 setembro 2017

Ainda estou me adaptando

Já se passaram vinte anos. Ainda me lembro de quando era pequena e me agarrava nas pernas da minha mãe, com medo das outras pessoas, do que elas poderiam fazer, do que elas se tornariam quando eu me distraísse por um momento. Não brincava com as outras crianças, não gostava delas. Não saia sem meu bichinho de pelúcia surrado, ele me protegia. Não confiava em ninguém além dos que conviviam comigo, e ainda assim me sentia traída quando minha comida era feita de verduras camufladas. Tinha medo do mundo lá fora e fazia questão de criar o meu próprio. Me perdia em meio aos meus brinquedos, inventava histórias que ninguém nunca vai imaginar. 
Não mudei muito. Ainda tenho receio de sair sozinha sem ter alguém com quem me apegar. Ainda tenho medo das pessoas, e do que elas fazem umas com as outras. Não sou de muitos amigos, mas confio nos poucos que tenho. Ainda carrego um bichinho na bolsa, ele não é grande como o que tinha, mas me protege da mesma forma. Ainda me sinto traída quando trocam o recheio da minha comida preferida por um mistura de coisas verdes. Meu mundo imaginário anda sempre ao meu redor. Quanto as minhas histórias, ninguém nunca vai saber de tudo.

Não quero que saibam.

É estranho como não consigo me adaptar. Sempre que digo isso, me sinto como uma peça errada no jogo da vida. Como se não fosse parte da embalagem original e todos descartassem por ser repetida. Talvez eu esteja errada, só não encontrei meu cantinho ainda. Ou talvez seja para ser assim mesmo, deslocada.

Para ser sincera, sempre gostei dessa solidão.
 
Não me sinto um problema, e não sou um, apesar de sempre me falarem o contrário. Apenas não aceito qualquer coisa, não faço questão de engolir aquilo que me desagrada, não tenho paciência com determinadas atitudes e, muitas vezes, meu jeito fechado fala mais alto do que a simpatia. Aliás, é difícil assimilar algumas exigências, principalmente quando te dizem para ser você mesmo, mas o mundo implora para que você seja como ele quer. Moldada previamente, com direito a degustação.

Mas sei lá! A verdade é que eu não mudei muito. Meu doce favorito ainda é algodão-doce, e faço questão de comprar um quando vejo o moço da praça vendendo. É como se fosse uma segunda via de proteção. Ele me traz segurança, e isso pode ser engraçado para quem lê, mas é reconfortante para quem sente.

10 comentários:

  1. Adorei o texto.
    Me identifiquei tanto. Quando eu tiver mais de 20 anos, acho que também não vai mudar muita coisa, embora eu queria que sim.
    ♥♥
    https://noitecer.blogspot.com/

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    1. A gente sempre muda, sempre se transforma, mesmo não querendo. E no fim dá tudo certo ♥

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  2. Sabe aquele texto que precisa ser relido para sentir novamente aquele abraço gostoso? Então, é esse.

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    1. Eu fico mega feliz de ter te proporcionado esse abraço gostoso, sabe? Obrigada pelo carinho ♥

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  3. Menina, que texto mais amor! Você manda tão bem nisso, sério! ESCREVA UM LIVRO! ♥

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    1. Ah, que lindeza ♥ QUERO ESCREVER aiueiauhe. Obrigada pelas palavras, viu? Não sabe como fico feliz.

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  4. Que lindo kelly! E eu super te entendo, eu sou exatamente assim na minha essência e sabe o que eu descobri? Que pessoas como nós nascemos para fazer a diferença no mundo, por isso não nos encaixamos, se nos encaixassemos e fossemos mais um como iriamos fazer essa diferença? Use de seus dons, é assim que essa diferença começa a acontecer, já vejo isso pelo blog <3 Pessoas como vc são assim, tem uma sensibilidade aguçada e um olhar diferente sobre a vida, não é questão de ser estranho, é questão de ser único. Um beijo, sucesso!
    -
    www.suave-pensamento.blogspot.com

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    1. Ah, que lindeza de comentário? Sabe quando mesmo longe você se sente abraçada e acolhida pelas palavras? Acabei de me sentir assim lendo tuas palavras ♥ Acho que a parte mais bacana de não ser mais do mesmo é que a gente sabe direitinho quem é de verdade e quem tá aqui só pra contar experiências. Eu espero mesmo fazer alguma diferença nesse turbilhão de sentimentos alheios. Espero que todo mundo tenha essa oportunidade algum dia ♥

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  5. Guria, teus textos sempre tao sinceros e reconfortantes. Me sinto tao bem no teu blog, parece que quando leio os teus textos entro num mundo paralelo e entro Caligrafando-te literalmente. Me sinto acolhida toda vez que me identifico na história contada.

    Vou seguir o pedido da moça mais acima: ESCREVA UM LIVRO! ♥
    Um exemplar tu ja pode ter certeza que sera vendido. Imagina poder carregar teu blog na bolsa, amei a ideia hahaha


    Beijos linda
    www.20-primaveras.blogspot.com.br

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    1. Ai, que amor ♥ Prometo de dedinho que ainda vou me esforçar pra ter um livrinho publicado, mesmo que seja com os textos aqui do blog. Seria muito amor na vida rs. Amei teu comentário e agradeço imensamente pelas palavras de carinho.

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