09 outubro 2015

Me amo assim, desse jeito

Aceitação é uma palavra divergente, dessas que você entende por cima mas nunca consegue ter cem por cento de certeza do que realmente se trata. Alguns a consideram uma expressão para aquilo da qual relevamos, outros como uma fuga para o que tanto tememos. Eu só aprendi o real significado a partir do momento em que me olhei de cima a baixo no espelho e enxerguei exatamente o que queria. Não estava conforme os padrões, não tinha todos os ossos aparecendo como no corpo das modelos, haviam algumas gordurinhas extras ao lado da cintura e marcas arroxeadas em lugares que jamais imaginei que pudessem ficar coloridos.
Apesar das controvérsias, a aceitação é simplesmente o ato de aceitar. Cresci ouvindo críticas clichês de que não tinha um corpo escultural e muito menos uma cintura fina que formaria um violão. Mas eu não sou um instrumento, pensava, sou uma pessoa. Então passei a ignorar qualquer julgamento. Não possuía motivos concretos para ser uma escultura pronta, eu queria ser um ser humano, moldável e adaptável. Uma tela de pintura à dedo que somente o próprio artista consegue traduzir. Uma pintura abstrata que deveras poucos compreendem, mas que está exposta a quem quiser contemplar. Pode valer milhões àqueles que reconhecem a arte, ou pode não valer absolutamente nada àqueles que não a entendem. Um risco no meio do breu.

Houve um dia um tempo atrás, em que me olharam dos pés à cabeça, me despiram a alma e me deixaram transparecer ao mundo. Senti medo, vergonha, receio e ao mesmo tempo a sensação de que estava completamente só, apesar dos inúmeros olhares de desaprovação. A partir de então decidi por conta própria que deixaria passar esse desconforto e começar a olhar para mim mesmo por outros ângulos, assim, um pré julgamento deixa de fazer efeito e eu tenho a certeza do que realmente sou. Minha aparência condiz sim com todo o resto, e apesar da hipocrisia de que não reparamos o exterior íntimo de cada um, somos os primeiros a criticá-los quando mudam por si mesmos.

No momento em que entendemos que nosso corpo é uma tela em branco, passamos a moldá-lo conforme nossas prioridades. É uma representação daquilo que está por dentro. Somente quem parar com total leveza para apreciar, terá a certeza de que nada mais é do que a essência transbordando. Passamos então à ter uma relação de orgulho com o que nos tornamos. E é a verdade, eu me amo assim, desse jeito sem jeito, dessa forma torta que só eu sei, com esse monte de defeitos que tanto fazem questão de ressaltar, afinal, são eles que me fazem ser o que sou e diferente do que todos querem que eu seja. Essa complicação toda tem nome, sobrenome, endereço, pele branca e cabelos escuros. É uma junção de todos os julgamentos com toda vontade de mostrar que não sou o que pensam. Sou mais do que isso.

Há mais ou menos um ano e meio eu entendi. Entendi que amadureci mais do que imaginei, e que aquela menininha boba que tinha um medo enorme de sair com uma roupa mais justa ou com saltos de quinze centímetros, foi embora. Ela deu lugar à alguém que tem total segurança consigo mesma. Que aprendeu a se amar acima de tudo e de qualquer um. Que aprendeu que sua auto estima só depende de si. Que passou a dar mais importância para aquilo que vê no espelho e não gosta, do que aquilo que tanto dizem ser ruim. Ela deu lugar à uma pintura extraordinária. Há os que apreciam com moderação, os que não se interessam pelo artista e ainda aqueles que a jogariam no lixo, quem sabe para fazer algo melhor. Tanto faz, aprendi a me apreciar sozinha.

18 comentários:

  1. O melhor texto que eu poderia ter lido hoje!
    Obrigada ♥

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    1. Awn, que bom que te serviu moça ♥ Obrigada.

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  2. "Não possuía motivos concretos para ser uma escultura pronta, eu queria ser um ser humano, moldável e adaptável. Uma tela de pintura à dedo que somente o próprio artista consegue traduzir."
    Como sempre, eu tiro o chapéu para os teus textos. Principalmente esses que falam de ti de forma tão leve. ♥

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    1. Um elogio seu com tamanho dom para fazer aqueles textos maravilhosos vale muito para mim também ♥ Fico feliz que tenha gostado.

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  3. Que texto incrível, Kelly! Quando disse "mas eu não sou um instrumento, eu sou humana.", me arrepiei.
    Não posso descrever o quando essa leitura me fez bem e o quanto teu blog tem esse Q especial <3
    Admiro muito o que cê' faz aqui.
    Um beijo

    Com carinho, Beca; Cafe de Beira de Estrada

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    1. Tocar as pessoas mesmo que de longe sempre é um desafio, e me derreto quando alguém vem me dizer que sentiu na pele exatamente o que falei ♥ Muito obrigada pelo carinho cotidiano dona moça, também admiro muito o que você faz no seu blog ♥

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  4. Pausa para eu tomar um fôlego e dizer: Chorei demais (estou muito sensível rs), e que forma linda e delicada de escrever algo que tomos passamos: amadurecimento.
    Tomar as rédias do próprio corpo não é fácil, mas é libertador.
    Faz bem ter a alma leve, sem aquele peso de que preciso ser alguém que os outros querem.
    Kelly arrasou, não consigo pensar em mais nada.

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    1. Oh pecado, perdão pelo choro moça ♥ O amadurecimento é breve, mas pouco entendemos ou percebemos algo sobre ele, passa quase despercebido por nós. É sim, uma liberdade que todos precisam sentir pelo menos uma vez na vida, e que faz muito bem à alma, inclusive. Obrigada Cami.

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  5. Que texto lindo, tu te superas a cada um que escreves, sério! Me fez muito bem ler isso, e me transmitiu uma tranquilidade gigante. Parabéns ♥

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    1. Obrigada Mari, é muito bom ler um elogio assim, me derreto ♥ E também é muito bom saber que consigo te passar exatamente aquilo que é preciso sem deixar o peso tomar conta. Essa tranquilidade é ótima.

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  6. Aceitação exige um autoconhecimento e uma força muito grande. Acredito que o seu texto dá esta força para os leitores que passarem por aqui. Como disse a Mariana, a tranquilidade que as suas palavras transmitem é grande. Acho que elas tiram o peso que rola - principalmente nas redes sociais - de você "ter que se aceitar". Só se aceita de verdade quem faz isso em paz.

    Beijos,

    Algumas Observações

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    1. Exige muito sim, mas acho que seguir essa exigência é a melhor parte, saber se conhecer. Muito obrigada pelo carinho Fê, espero conseguir passar essa força mesmo ♥ Penso e acredito que conseguir tirar esse peso da obrigação de se aceitar é a melhor forma que tem de compreender que isso tem de partir de nós mesmos, e não dessa pressão de ter que ser assim e ponto. Falou tudo.

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  7. Que lindo esse texto Kelly ♥
    Se aceitar, se amar do jeitinho que é, reconhecer seus defeitos e qualidades e aprender a lidar com eles, é um processo. Lento para alguns e doloroso para outros, mas a caminhada nos leva a maior forma de liberdade existente e quando se atinge esse nível é muito difícil sair dele. Já dizia Audrey Hepburn, que as mulheres mais bonitas são as mais felizes e é extamente isso. Não tem padrão de beleza que rebaixe um ser humano estonteante.
    Amei o projeto, parabéns
    Bjs

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    1. É difícil sim, demoramos "décadas" até realmente ter aquela pitadinha de confiança em nós mesmos. Concordo quando diz que é doloroso, muitas vezes, críticas e pré julgamentos estão aí onde quer que seja, e aprender a aceitar a crítica ou ignorá-la por saber a verdade, é muito mais complicado do que realmente parece. Fico feliz que tenha gostado, obrigada ♥

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  8. Acho extremamente importante conseguirmos nos aceitar como somos, mas ao mesmo tempo, isso é muito difícil, porque a sociedade cobra que estejamos dentro de determinados padrões e as críticas que ouvimos por não sermos assim acabam sendo enormes. Então acaba sendo um processo trabalhoso conseguirmos nos livrar disso e percebermos que somos lindos do jeito que somos, que cada um é perfeito à sua maneira.

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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    1. Acho que as críticas são algo bastante desconexo, se você parar de dar tantos ouvidos à quem não lhe conhece e quer se meter, certamente que vai perceber que as críticas mesmo não existem. Cada um tem seu jeito. Não cabe a ninguém dizer o contrário.

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  9. Nossa amei seu texto <3, já fiz o meu mas estou com um pouco de insegurança, não sei se posto, porque eu nunca falei muito de como me sinto com meu corpo e comigo mesma no meu blog, mas eu sinto que devo postar :D. Beijos e continue fazendo esses textos maravilhosos :)

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    1. Poste sim, o intuito do projeto é justamente esse, tirar essa insegurança que temos ao falar do nosso próprio corpo. Deixe a vergonha de lado por uns minutos e clique no publicar sem medo ♥

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