19 junho 2015

Ainda estou me adaptando

Já se passaram dezoito anos. Ainda me lembro de quando era pequena e me agarrava nas pernas da minha mãe, com medo das outras pessoas, do que elas poderiam fazer, do que elas se tornariam quando eu me distraísse por um momento. Não brincava com as outras crianças, não gostava delas. Não saia sem meu bichinho de pelúcia surrado, ele me protegia. Não confiava em ninguém além dos que conviviam comigo, e ainda assim me sentia traída quando minha comida era feita de verduras camufladas. Tinha medo do mundo lá fora e fazia questão de criar o meu próprio. Me perdia em meio aos meus brinquedos, inventava histórias que ninguém nunca vai imaginar. 
Não mudei muito. Ainda tenho receio de sair sozinha sem ter alguém com quem me apegar. Ainda tenho medo das pessoas, e do que elas fazem umas com as outras. Não sou de muitos amigos, mas confio nos poucos que tenho. Ainda carrego um bichinho na bolsa, ele não é grande como o que tinha, mas me protege da mesma forma. Ainda me sinto traída quando trocam o recheio da minha comida preferida por um mistura de coisas verdes. Meu mundo imaginário anda sempre ao meu redor, há aqueles que se atrevem a conhecê-lo e passarem alguns dias, mas geralmente optam por ir embora pela manhã. Minhas histórias, ninguém nunca vai saber de tudo, não quero que saibam.

É estranho como não consigo me adaptar. Sempre que digo isso, me sinto como uma peça errada no jogo da vida. Como se não fosse parte da embalagem original e todos descartassem por ser repetida. Talvez eu esteja errada, só não encontrei meu cantinho ainda. Ou talvez seja para ser assim mesmo, deslocada. Para ser sincera, sempre gostei dessa minha solidão. De conseguir ser eu mesma sem precisar dar desculpas, de poder falar o que penso sem ninguém notar que abri a boca. Ninguém liga muito para uma pessoa de um metro e sessenta que desaparece no meio da multidão, sou só mais uma, só que diferente das outras, e talvez isso faça com que não entendam.

Não me sinto um problema, e não sou um, apesar de que sempre me disseram o contrário. Apenas não aceito qualquer coisa, não faço questão de engolir aquilo que me desagrada, não tenho paciência com determinadas atitudes e muitas vezes meu jeito fechado fala mais alto do que a simpatia. Há os que não fazem nem mesmo questão de me conhecer, há os que já me conhecem mais querem confirmar o que não sou, e ainda há os que me conhecem e fazem questão de mudar de opinião o tempo inteiro. É difícil assimilar certos pensamentos, principalmente quando te dizem para ser você mesmo, mas o mundo implora para que você seja como ele quer.

Não mudei muito. Ainda estou em um longo momento de adaptação, mas espero um dia ter convicção de que entendo cada coisinha que existe lá fora. Espero também que esse entendimento não me tirem meus ideias, e que minha essência permaneça como a de uma criança. Meu doce favorito ainda é algodão-doce, e faço questão de comprar um quando vejo o moço da praça vendendo. É como se fosse uma segunda via de proteção. Ele me traz segurança, e isso pode ser engraçado para quem lê, mas é reconfortante para quem sente.

20 comentários:

  1. Que texto maravilhoso, Kelly. Eu me senti sendo representada em cada linha, de verdade. Sempre fui uma garota muito tímida e sempre preferi ficar sozinha. Houve uma época em que eu perdi bastante disso, mas depois de um tempo eu comecei a me fechar. Não por raiva do mundo ou rebeldia, mas justamente por enxergar melhor as coisas. Eu acho que amadureci muito, e junto disso eu não aturo mais coisas que me fazem mal, como antes. Tem pessoas que não entendem isso e dizem que eu sou anti-social, ou que não me importo com nada... Mas é apenas eu sendo eu mesma, sabe? Eu prefiro ficar quietinha comigo mesmo e me abrir de verdade com quem eu amo, e fim. Não sei se fui clara, hahahaha. Eu fico meio confusa na hora de explicar essas coisas, quem me dera conseguir ter a facilidade de expor isso como você conseguiu, nesse texto divino. Parabéns! <3

    Lovecats | allieprovier.blogspot.com

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    1. Acho que sempre existe uma época em que nos abrimos mais, conversamos mais, porém não é necessariamente nossa essência, e aí nos fechamos novamente. O problema é que enxergam isso como algo ruim, a antissocial como você mesmo diz. Te entendo perfeitamente moça, foi claríssima. Você tem, seus textos são incríveis e qualquer um consegue sentir o que sente escrevendo eles, acho que é o meio que encontramos de nos abrir ♥ Muito obrigada pelo carinho.

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  2. Que demais, Kelly! É incrível quando a gente se identifica com algum texto. Eu sempre fui muito sozinha, a única pessoa que era mesmo apegada era meu pai, e mais da metade, senão todas, que confiei acabaram me decepcionando. Isso faz com que eu seja quieta e prefira estar sozinha, e também tenha um leve medo de me entregar. Mas a solidão é boa também. Sou minha pessoa favorita haha um beijo <3

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    1. Isso de se decepcionar é algo que você vai ter de aprender a conviver sempre, porque apesar de esperarmos o melhor dos outros, no final estamos todos sozinhos. Sei como é Nath, "mas a solidão é boa", assino embaixo. Isso é ótimo, seja sempre sua pessoa favorita ♥

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  3. Amei esse texto, me identifiquei muito! Até hoje me sinto meio deslocada, como se eu não combinasse com ninguém, não tivesse um par. Parece que as minhas brincadeiras e medos são só meus e ninguém entende, sabe? Mas eu gosto muito de ser carta única e tenho muito orgulho de não tentar ser igual a todo mundo. Como você mesma disse: "isso pode ser engraçado para quem lê, mas é reconfortante para quem sente."
    Beijos!!

    http://chuvadejujubas.blogspot.com.br/

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    1. Awn, fico feliz com isso ♥ Sei sim, também me sinto assim diversas vezes, e é muito difícil encontrar alguém que entenda um por cento do que realmente quero demonstrar ou falar, mas ser uma carta única é uma delícia, afinal, ser igual é um tanto chato.

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  4. Que texto lindo, e apesar de amar a companhia de alguns amigos sou apegada a minha solidão.
    Bom é saber que não somos a única a se sentir assim. ♥

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    1. Pelo menos sua solidão não terá poder de lhe machucar, a menos que você queira. Obrigada moça, e sim, é muito bom saber disso ♥

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  5. Que texto lindo! Me identifiquei totalmente! Sempre fui muito tímida e preferi ficar sozinha no meu canto, e ninguém nunca vai saber de todas as minhas histórias, também prefiro que não saibam. Na maioria das vezes é melhor assim. Amo seus textos! Espero algum dia ler um livro seu! <3

    http://doisjeitos.blogspot.com.br/

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    1. O mistério sempre me agradou, e há quem também se encante por ele, então não há problema algum em preferir que não saibam, sua histórias pertencem a você, e só. Awn, muito obrigada, um dia escrevo um, prometo, só não sei se irá gostar ♥

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  6. Adorei o texto! É de uma sinceridade infinita! Me relacionei em algumas partes e cito Leminski para você: "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Leve isso para a sua vida e não se perca na ilusão de que devemos mudar para agradar os outros, precisamos evoluir, mas evoluir para nós mesmos, para nos tornamos cada dia um ser humano melhor! A vida é muito melhor quando observamos com olhos de criança. =)
    http://laemjupiter.blogspot.com.br

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    1. Que bom que gostou Ju ♥ Leminski é um dos meus escritores preferidos, e confesso confiar muito nessa frase, espero que nos leve além mesmo, e que isso seja bom. A inocência de uma criança é muito mais bonita.

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  7. Tem certas coisas que nunca mudam mesmo. Eu sou muito nostálgica, e quando posso relembrar algo da infância, o faço. Por isso, gostei tanto do teu texto, é de uma leveza que diz tanta coisa, que é impossível não pensar em como eu mesma tenho dificuldades em me adaptar, mas sinceramente? Não que a gente precise mesmo. Se eu não fosse gigante demais, e tivesse os teus lindos 1,60m, seria eu nesse texto, hahaha. Beijos
    Desfocando Ideias

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    1. Relembrar é sempre bom, também o faço quando posso. Acho que ninguém precisa disso, mas acabamos por desanimar quando não conseguimos. Ah menina, cê tem quanto? Haha, mas sua altura pode dizer muito sobre você ♥

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  8. Um dia li num livro que às vezes o mundo diz pra você se tornar algo quando seu eu grita por livre arbítrio. Entendo essa insegurança, esse desejo de permanecer nessa redoma própria. Acontece, que mudança é difícil e cada um "sabe onde o sapato aperta". Tem coisa que é complicado pra mim que é simples pra um monte de gente e vice-versa. E admito sim, já deixei muita coisa que me fazia feliz de lado só pra me ver de acordo com um padrão dogmático, mas hoje me aceito como eu sou. Criança fora da idade que dorme com urso de pelúcia e chora de nervoso quando tá com vergonha. É assim que eu sou e não quero e NÃO PRECISO mudar. Não vou negar a mim mesmo. Não quero ser padrão. Não quero fazer parte de uma sociedade de robôs humanoides que fazem tudo igual. Eu sou humana. E como tal, tenho todo o direito de ser diferente.

    Beijos, Sel | Quinta Gaveta ♥

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    1. Se aceitar é um passo enorme, e acho que o mais importante para viver com tranquilidade. Sempre trazemos um pedacinho do que fomos quando menores para nossos dias de adulto/adolescente, isso é um fato e ninguém tem o direito de dizer o contrário. Exatamente, somos o que precisamos ser, não o que os outros querem ♥

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  9. Que texto lindo. Gosto muito da companhia das pessoas, mas as vezes é bom a solidão né? Ficar sozinha pensando na vida e tudo mais.
    Amei essa parte "É estranho como não consigo me adaptar. Sempre que digo isso, me sinto como uma peça errada no jogo da vida" ♥

    Beijos :*
    Dani - http://www.escritasnachuva.com/

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    1. É bom mesmo, se desligar do mundo por uns instantes, botar uma boa música e refletir. Muito obrigada moça ♥

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  10. Já faz um tempinho que você postou esta publicação. Mas, dando uma olhadinha na sua Página, me senti atraída pelas poucas palavras que você deixou por lá referentes à este texto. E, imediatamente, vim à procura dele em meio a tanto outros que você já publicou.
    Bom, Kelly, já estive inúmeras vezes em seu Blog e, preciso dizer que, você é incrível. Fico encantada com a sua capacidade de escrever tao bem. Se descrevendo, você consegue descrever várias outras pessoas, como eu. São de blogueiras como você que estamos precisando. Ah, e vale lembrar que, você é uma grande inspiração para mim que só estou no comecinho desse mundo de Blogs.
    Enfim, parabéns por este e por todos os textos que você posta por aqui.
    Beijos!! *-*

    umadocedesconheciida.blogspot.com

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    1. Eu não tenho nem palavras para descrever o que sinto quando alguém me fala algo assim ♥ Fico imensamente feliz em saber que posso fazer parte da vida de algumas pessoas, mesmo que sejam com meras palavras. É tão aconchegante chegar aqui e saber que tem muitas outras pessoas, como você, que se sentem exatamente igual a mim. Também estou só no comecinho, moça, e ainda ando aprendendo muitas coisas por aqui, com pessoas incríveis.
      Um muito obrigada pelo carinho, pelas palavras e pelo abraço que senti ao lê-las ♥

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