23 outubro 2017

Só Os Animais Salvam, de Ceridwen Dovey

Confesso que esse foi o primeiro livro da DarkSide que, apesar de lindo de todas as formas possíveis, tanto de estética quanto de conteúdo, não me prendeu. Eu me arrastei lendo as histórias e levei muito mais tempo do que o normal em uma obra com contos tão singelos. Na verdade, não sei se a escrita da autora não me convenceu ou eu que não consegui me identificar. De qualquer maneira, ele me ensinou algumas lições valiosas sobre os animais: essas criaturas peculiares que aparecem nas nossas vidas por acaso e nos amam incondicionalmente, mesmo quando nossos atos não são dignos de amor.
Só Os Animais Salvam é uma obra diferente, exatamente como seu contexto. Dividida em 10 contos, temos em cada um deles a visão dos animais que vivenciaram as guerras humanas, como a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra Fria. Em alguns, como o do chimpanzé Peter Vermelho, a narrativa muda de um texto corrido para cartas trocadas, o que, confesso, me chamou mais atenção do que as demais. No entanto, todas as histórias, de forma direta ou indireta, acabam marcando o leitor.
 
Título: Só Os Animais Salvam
Autor: Ceridwen Dovey
Páginas: 240 páginas
Editora: DarkSide Books

❤ Livro cedido em parceria com a editora
Nós, humanos, achamos que somos o máximo. Mas o que temos feito com o nosso mundo? Só os Animais Salvam é um livro que tenta responder a essa pergunta de maneira inusitada. Cada um de seus contos é uma fábula moderna, narrada pela alma de um animal envolvido em mais um de nossos incontáveis conflitos e guerras humanas ao longo do último século, e suas espantosas e formidáveis histórias de vida e morte. Em meio ao caos, os animais conseguem encontrar esperança e inspiração em uma das atividades mais significativas que nossa espécie já criou: a literatura.
Apesar de os contos remeterem a algo menos atrevido e mais leve, cada entrelinha possui surpresas que chocam o leitor, não só pela forma como são contadas, mas pelo fato de que pouco sabemos sobre a violência sendo vista de outro ângulo. E a autora consegue descrever com sensibilidade cada detalhe. Isso já começa com a ordem das fábulas, partindo de 1892, com a narrativa de um camelo, até chegar em 2006, com a história de um papagaio. O mais interessante disso é que os contos são acontecem sempre no mesmo local, eles perpassam por inúmeros lugares, como Austrália, Líbano, Estados Unidos e Moçambique, sendo indicados sempre junto ao ano em que o animalzinho em questão morreu. Além disso, as narrativas também acompanham seu tempo, o que facilita a identificação.
Um dos contos que mais me prendeu foi o Alma de Cachorro, contado por uma versão moderna de um cão-lobo alemão que mostrou fidelidade ao seu Mestre até o fim de seus dias. Mesmo sendo exilado do templo em que morava, o cão vagou pela floresta, convivendo com a alma de animais mortos, para encontrar uma forma de se redimir ou sobreviver. Entretanto, acabou junto a outros cães em meio a guerra. Já na fábula Alma de Chimpanzé, nos deparamos com um chimpanzé chamado Peter Vermelho, que troca cartas com a esposa de um treinador para saber sobre sua futura companheira, Hazel. Só que esse contato com a humana o faz pensar mais nela do que em sua esposa, magoando Hazel. Peter havia sido treinado para ser um humano, mas, em seu último dia, a degradação se faz presente. Ele é novamente um animal.

O livro foi muito bem pensado e toda a diagramação, assim como sempre menciono, ficou impecável. É tão bacana quando o leitor consegue sentir a obra, não é? A gente não só aproveita a história, mas também a forma como ela nos foi disponibilizada, e disso eu não posso reclamar em nada. A capa é espetacular, e o conteúdo em si, mesmo com minha opinião contrária, tem um quê especial.
Posso dizer que as histórias são tocantes e foram escritas com uma delicadeza única, mas parece que eu não consegui digerir os fatos da maneira correta. Em muitos contos me senti perdida, sem saber o que pensar ou como interpretá-los para que o entendimento fosse sensato. No fim, desisti de entender e passei apenas a interpretar as fábulas da forma como elas foram colocadas no livro: com sutileza. Acredito que este seja um livro para se deliciar, absorver aos poucos e vagarosamente. Talvez em outro momento, com mais calma e sem tantas coisas na cabeça, volte a lê-lo. E, quem sabe nesse dia, minha opinião mude.

17 outubro 2017

Sobre monografia, escândalos e cupcakes

Apesar de adorar fazer mil coisas ao mesmo tempo, ainda que me digam que não consigo fazer nem a metade, há momentos em que realmente não consigo conciliar tudo, então vou realizando o que preciso em ordem de prioridade. No momento, minha monografia anda no topo da lista, ganhando em disparada de qualquer outro item. Provavelmente é por isso que ando um pouco afastada do blog. Não pensem que é descaso, longe disso! É que a pessoa que vos escreve não consegue parar um único segundo quieta, então, quando vejo que tá tudo muito parado, invento de me meter em enrascadas. A da vez foi a ideia de abrir um negócio de doces, o que acabou se tornando realidade mais rápido do que o esperado, ou seja, tempo eu não tenho, mas a gente tenta, né?
Por incrível que pareça, assim como quando estava no drama do trabalho de conclusão do curso, a monografia me surpreendeu positivamente. Passei de "não faço ideia do que escrever" para "me façam parar, pelo amor de Deus". Não lembro se comentei em algum momento, mas acabei escolhendo um tema um tanto polêmico, que foi o caso retratado no filme Spotlight: Segredos Revelados. Para quem não sabe ou ainda não viu o filme, trata-se de um padre que foi acusado de molestar crianças, sendo que os números estimam mais de 200 vítimas. A denúncia ficou por baixo dos panos, e os documentos oficiais foram guardados pela Igreja Católica, mas a equipe de jornalistas investigativos do jornal americano The Boston Globe ficou responsável por reabrir o caso. Ao longo do filme, o processo de apuração é contado de forma detalhada.

Mas o problema, se querem saber, não é nem a denúncia em si, apesar de ser horrível. O fato é que, quando peguei o livro para ler, fiquei abismada com a forma fria e desumana como os próprios religiosos comentavam os abusos. E, mais ainda, quando sacerdotes e bispos mencionavam que sabiam sobre as acusações (que envolviam mais de 90 padres), mas que a Igreja fazia o melhor para a sociedade. 

Vejam bem, não estou generalizando, muito menos criticando a religião, mas admito que fiquei em choque ao ler o assunto de forma tão detalhada. Fiquei arrepiada diversas vezes ao me deparar com os relatos das vítimas, que contaram explicitamente os ocorridos. A gente acaba sem reação. Mas, ao mesmo tempo, também fico curiosa, porque quero saber mais, quero entender até onde isso vai. 

Acho que é por isso que dizem que precisamos escolher um tema que nos agrade: no fim, casamos com um trabalho que leva meses para ser finalizado, e parece que nunca tem conteúdo o suficiente para envolver tudo o que queremos citar. Parece que quanto mais pesquiso, mais coloco tópicos na análise de dados. Tenho certeza de que minha orientadora deve ficar louca comigo!

E não só ela. Com a minha brilhante ideia de criar o Cristalizê, um negocinho meu de encomendas de doces aqui para Florianópolis e região, quase todo mundo que convive comigo entrou na loucura de correr contra o tempo para entregar comidinhas gostosas e de qualidade. Se isso vai dar certo eu não faço ideia, mas admito que adoro essa montanha russa de emoções. Tem dias que tudo conspira a favor, mas tem dias que a gente só quer correr para as colinas e fingir que não existe.

Então era isso. Só queria compartilhar com vocês os últimos acontecimentos e dizer que "tô viva!". Logo logo trago meus textos de volta e, quem sabe, assuntos diferentes também. Enquanto isso, vou postando o que tenho prontinho por aqui.

03 outubro 2017

Resenha dupla: Fabrício Carpinejar

Eu conheci o Carpinejar por acaso, quando entrei no Tumblr e descobri um universo que não fazia ideia de que existia. Inclusive me apaixonei pela escrita justamente por conta disso. Aí também surgiu meu amor por Clarice Lispector, Tati Bernardi e Caio Fernando de Abreu. Nomes clichês que passaram a fazer parte do meu dia a dia, mesmo que sem intenção. O Fabrício, entretanto, só o conheci melhor um pouco mais tarde, quando encontrei alguns textos de sua autoria rolando no Facebook e me identifiquei com cada estrofe, cada frase, cada escolha de palavras. Aliás, isso também aconteceu quando li recentemente dois livros do autor: um repleto de pequenos poemas sobre o amor, sentimento que vive presente aqui no blog; o outro, por sua vez, com crônicas que dizem respeito não somente ao romance, mas também ao amor humano.
O primeiro se chama Amor à Moda Antiga, que foi publicado pela editora Belas Letras em 2016. Admito que, quando vi o título na listinha de possíveis solicitações, não pensei duas vezes antes de me empolgar com a leitura. O livro, apesar de ser curtinho, foi muito bem feito e muito bem escrito. O Carpinejar dessa obra não faz rodeios quando o assunto é o amor. Ele vai direito ao ponto e toca fundo na ferida. Faz sangrar. Mas essa é exatamente a intenção. De acordo com a editora, a ideia do livro é transparecer os sentimentos contidos nas entrelinhas rabiscadas pelo próprio autor. É uma obra orgânica e imperfeita, porém apaixonante, exatamente como o amor deve ser.
Os poemas foram escritos literalmente em uma máquina de escrever do Fabrício, a qual ganhou em seu aniversário de 43 anos. De lá para cá, o escritor pegou o hábito de construir poemas e guardá-los como se fossem um diário de seus sentimentos mais íntimos. A editora, com todo seu feeling, resolveu publicá-los da mesma forma como os recebeu, sem revisão ortográfica e com todas as anotações. A meu ver, esse toque foi essencial para que o leitor pudesse sentir cada emoção. Aliás, acho que isso é uma das coisas mais apaixonantes na escrita: se o escritor coloca no papel seu eu mais intenso, o leitor, seja ele quem for, vai conseguir enxergar além daquilo que lhe foi exposto.
Em contrapartida, temos diversas crônicas modernas em Amizade é Também Amor, uma das obras mais recentes do Carpinejar, publicada este ano pela Bertrand Brasil. Aqui, temos um livro um pouco mais extenso e intenso, que aprofunda diferentes temáticas, mas deixa em cada texto um tanto de amor. Só que esse amor não é sinônimo apenas para o amor romântico, desses que vemos nos filmes mais clichês da Sessão da Tarde; temos, também, o amor da amizade, da família, de si mesmo. Diferentemente do primeiro livro, este é mais aberto a interpretações. O autor não é narrador, não é espectador, não é alheio a história. Ele é personagem, assim como o leitor. Seus aprendizados são contados de maneira leve, bem humorada e com aquele toque de sutileza que só o Fabrício consegue dar.
 
Apesar dos 122 textos, me contive a favoritar dois ou três, dos quais mexeram com o meu emocional. No entanto, outros três ou quatro me fizeram rir até a barriga começar a doer. E ainda tem aqueles 10 ou 12 que me deixaram aflita, angustiada com a vida. A verdade é que eu me apaixonei por todos eles, cada qual com sua característica única. E confesso que aprendi! Aprendi muito sobre amizade, amor, companheirismo, gratidão, empatia e, principalmente, a me colocar no lugar do outro, mesmo que isso destrua meus preceitos e me faça rever alguns ideais.

Ainda que as duas obras sejam completamente diferentes, bem como de editoras distintas, elas ganharam meu carinho. Na verdade, se alguém me perguntar sobre elas, provavelmente não terei elogios suficientes para descrevê-las. Foi por isso que também resolvi juntá-las em uma única resenha, já que as duas possuem belezas particulares que encantam qualquer leitor. De forma geral, não encontrei erros ou defeitos, e considero as duas diagramações um espetáculo. Enquanto que uma é delicada, sutil e extremamente condizente com o interior; a outra traz elementos minimalistas que dão destaque ao texto. Não poderia ficar mais feliz em ter tido a oportunidade de absorver o conteúdo dos dois livros. Espero que muitas pessoas o façam também.
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