03 outubro 2017

Resenha dupla: Fabrício Carpinejar

Eu conheci o Carpinejar por acaso, quando entrei no Tumblr e descobri um universo que não fazia ideia de que existia. Inclusive me apaixonei pela escrita justamente por conta disso. Aí também surgiu meu amor por Clarice Lispector, Tati Bernardi e Caio Fernando de Abreu. Nomes clichês que passaram a fazer parte do meu dia a dia, mesmo que sem intenção. O Fabrício, entretanto, só o conheci melhor um pouco mais tarde, quando encontrei alguns textos de sua autoria rolando no Facebook e me identifiquei com cada estrofe, cada frase, cada escolha de palavras. Aliás, isso também aconteceu quando li recentemente dois livros do autor: um repleto de pequenos poemas sobre o amor, sentimento que vive presente aqui no blog; o outro, por sua vez, com crônicas que dizem respeito não somente ao romance, mas também ao amor humano.
O primeiro se chama Amor à Moda Antiga, que foi publicado pela editora Belas Letras em 2016. Admito que, quando vi o título na listinha de possíveis solicitações, não pensei duas vezes antes de me empolgar com a leitura. O livro, apesar de ser curtinho, foi muito bem feito e muito bem escrito. O Carpinejar dessa obra não faz rodeios quando o assunto é o amor. Ele vai direito ao ponto e toca fundo na ferida. Faz sangrar. Mas essa é exatamente a intenção. De acordo com a editora, a ideia do livro é transparecer os sentimentos contidos nas entrelinhas rabiscadas pelo próprio autor. É uma obra orgânica e imperfeita, porém apaixonante, exatamente como o amor deve ser.
Os poemas foram escritos literalmente em uma máquina de escrever do Fabrício, a qual ganhou em seu aniversário de 43 anos. De lá para cá, o escritor pegou o hábito de construir poemas e guardá-los como se fossem um diário de seus sentimentos mais íntimos. A editora, com todo seu feeling, resolveu publicá-los da mesma forma como os recebeu, sem revisão ortográfica e com todas as anotações. A meu ver, esse toque foi essencial para que o leitor pudesse sentir cada emoção. Aliás, acho que isso é uma das coisas mais apaixonantes na escrita: se o escritor coloca no papel seu eu mais intenso, o leitor, seja ele quem for, vai conseguir enxergar além daquilo que lhe foi exposto.
Em contrapartida, temos diversas crônicas modernas em Amizade é Também Amor, uma das obras mais recentes do Carpinejar, publicada este ano pela Bertrand Brasil. Aqui, temos um livro um pouco mais extenso e intenso, que aprofunda diferentes temáticas, mas deixa em cada texto um tanto de amor. Só que esse amor não é sinônimo apenas para o amor romântico, desses que vemos nos filmes mais clichês da Sessão da Tarde; temos, também, o amor da amizade, da família, de si mesmo. Diferentemente do primeiro livro, este é mais aberto a interpretações. O autor não é narrador, não é espectador, não é alheio a história. Ele é personagem, assim como o leitor. Seus aprendizados são contados de maneira leve, bem humorada e com aquele toque de sutileza que só o Fabrício consegue dar.
 
Apesar dos 122 textos, me contive a favoritar dois ou três, dos quais mexeram com o meu emocional. No entanto, outros três ou quatro me fizeram rir até a barriga começar a doer. E ainda tem aqueles 10 ou 12 que me deixaram aflita, angustiada com a vida. A verdade é que eu me apaixonei por todos eles, cada qual com sua característica única. E confesso que aprendi! Aprendi muito sobre amizade, amor, companheirismo, gratidão, empatia e, principalmente, a me colocar no lugar do outro, mesmo que isso destrua meus preceitos e me faça rever alguns ideais.

Ainda que as duas obras sejam completamente diferentes, bem como de editoras distintas, elas ganharam meu carinho. Na verdade, se alguém me perguntar sobre elas, provavelmente não terei elogios suficientes para descrevê-las. Foi por isso que também resolvi juntá-las em uma única resenha, já que as duas possuem belezas particulares que encantam qualquer leitor. De forma geral, não encontrei erros ou defeitos, e considero as duas diagramações um espetáculo. Enquanto que uma é delicada, sutil e extremamente condizente com o interior; a outra traz elementos minimalistas que dão destaque ao texto. Não poderia ficar mais feliz em ter tido a oportunidade de absorver o conteúdo dos dois livros. Espero que muitas pessoas o façam também.

28 setembro 2017

Ainda estou me adaptando

Já se passaram vinte anos. Ainda me lembro de quando era pequena e me agarrava nas pernas da minha mãe, com medo das outras pessoas, do que elas poderiam fazer, do que elas se tornariam quando eu me distraísse por um momento. Não brincava com as outras crianças, não gostava delas. Não saia sem meu bichinho de pelúcia surrado, ele me protegia. Não confiava em ninguém além dos que conviviam comigo, e ainda assim me sentia traída quando minha comida era feita de verduras camufladas. Tinha medo do mundo lá fora e fazia questão de criar o meu próprio. Me perdia em meio aos meus brinquedos, inventava histórias que ninguém nunca vai imaginar. 
Não mudei muito. Ainda tenho receio de sair sozinha sem ter alguém com quem me apegar. Ainda tenho medo das pessoas, e do que elas fazem umas com as outras. Não sou de muitos amigos, mas confio nos poucos que tenho. Ainda carrego um bichinho na bolsa, ele não é grande como o que tinha, mas me protege da mesma forma. Ainda me sinto traída quando trocam o recheio da minha comida preferida por um mistura de coisas verdes. Meu mundo imaginário anda sempre ao meu redor. Quanto as minhas histórias, ninguém nunca vai saber de tudo.

Não quero que saibam.

É estranho como não consigo me adaptar. Sempre que digo isso, me sinto como uma peça errada no jogo da vida. Como se não fosse parte da embalagem original e todos descartassem por ser repetida. Talvez eu esteja errada, só não encontrei meu cantinho ainda. Ou talvez seja para ser assim mesmo, deslocada.

Para ser sincera, sempre gostei dessa solidão.
 
Não me sinto um problema, e não sou um, apesar de sempre me falarem o contrário. Apenas não aceito qualquer coisa, não faço questão de engolir aquilo que me desagrada, não tenho paciência com determinadas atitudes e, muitas vezes, meu jeito fechado fala mais alto do que a simpatia. Aliás, é difícil assimilar algumas exigências, principalmente quando te dizem para ser você mesmo, mas o mundo implora para que você seja como ele quer. Moldada previamente, com direito a degustação.

Mas sei lá! A verdade é que eu não mudei muito. Meu doce favorito ainda é algodão-doce, e faço questão de comprar um quando vejo o moço da praça vendendo. É como se fosse uma segunda via de proteção. Ele me traz segurança, e isso pode ser engraçado para quem lê, mas é reconfortante para quem sente.

26 setembro 2017

Esqueça o Amanhã, de Pintip Dunn

Faz mais ou menos uma semana que finalizei a leitura de Esqueça o Amanhã, mas ainda não havia conseguido me recompor por completo para ter uma opinião sensata. Quando vi o título na listagem de livros da editora, pensei no quanto gostaria de conhecer a história e me perder em mais uma distopia. No entanto, depois que o livro chegou por aqui e encontrei algumas resenhas sobre ele, minha vontade de pegá-lo para ler passou para a mínima possível. Mas li, e me decepcionei tanto quanto poderia. A história tem tudo para ser sensacional, para se tornar inesquecível na mente do leitor, só que o caminho foi totalmente contrário.
Callie está para completar 17 anos e logo irá receber sua memória do futuro, ou seja, aquela visão padronizada e linda que a guiará pelo resto da vida. Ela gostaria que fosse algo relacionado a gastronomia, afinal, sua paixão por temperos e novas receitas é indescritível, mas também torce para que seja algo positivo, mesmo que não tenha nada a ver com a cozinha. Atualmente, ela mora com a mãe e com a irmã pequena, que, por sinal, já tem uma base de como é o futuro, pois consegue prever um curto período de tempo, como as folhas que irão cair de uma árvore. Aliás, é justamente em um momento como esse que Callie volta a se encontrar com Logan.

Título: Esqueça o Amanhã
Autor: Pintip Dunn
Páginas: 34 páginas
Editora: Galera Record

❤ Livro cedido em parceria com a editora
Em uma sociedade onde jovens recebem uma visão de seu futuro quando completam 17 anos, todos têm uma carreira a qual dedicar seus esforços. Um campeão de natação, um renomado cientista, um chef de sucesso. No caso de Callie, uma assassina. Em sua visão, a garota se vê matando a própria irmã. Antes que ela possa entender o que aconteceu, Callie é presa – e a única pessoa capaz de ajudá-la é Logan, uma paixonite de infância com quem não fala há cinco anos. Agora, ela precisa descobrir uma forma de proteger sua irmã da pior das ameaças: ela mesma.
O problema das memórias futuras, como dizia Callie, é que elas já estão prontas. A pessoa a recebe e larga tudo para conquistar aquilo que o destino lhe reserva, sem nem perder tempo com outras opções. No entanto, justamente o que ela menos espera lhe aparece. Como um pesadelo intenso e inegável, Callie se vê matando a própria irmã, uma vez que o governo não aceita que pessoas "paranormais" vivam em sociedade livremente. É por isso, também, que a garota vai presa, pois, mesmo ainda não tendo cometido o crime, certamente o fará em breve, já que todas as visões são concretizadas.

Depois de alguns dias em meio a comidas ruins, paredes frias e um buraco na parede que a faz ter contato com outra jovem, Callie é surpreendida por Logan. Ele consegue tirá-la do lugar e a leva para um acampamento secreto, onde ficam seguros aqueles que possuem algum dom. Mas o amor de Callie por Logan se torna cada vez mais forte, assim como sua preocupação com a irmã. Ela precisa arranjar um jeito de fazer tudo dar certo, negando sua própria existência do futuro.
Esqueça o Amanhã tem uma premissa muito bacana, dessas que realmente prende o leitor e o faz querer saber mais sobre os personagens, mais sobre o contexto em que está inserida. No entanto, eu não sei ao certo o que aconteceu com a autora, mas ela me fez odiar o livro. Não só a personagem principal é extremamente sem graça como os próprios acontecimentos parecem arrastados, sendo expostos de forma lenta e cansativa. Além disso, o foco, que deveria ser o sistema baseado nas memórias futuras, fica por conta do romance entre Callie e Logan, o que, de longe, não chega nem a ser um romance real, de tirar o fôlego ou arrancar suspiros.

Eu terminei a leitura dentro de uma semana, ou seja, quase o triplo do que estou acostumada, mas isso não ocorreu por conta da quantidade de páginas, mas, sim, pelos capítulos mal divididos e pela narrativa extensa e desnecessária em determinados momentos. Inclusive, admito que pulei diversas páginas que não agregaram em nada no conteúdo, muito pelo contrário, só fizeram volume. Mas vale ressaltar que a escrita da autora, em si, é muito boa, com uma linguagem mais singela e de fácil entendimento. Acho que ela só não soube conciliar as duas coisas.

Os personagens secundários, apesar de serem secundários, me prenderam na leitura, mas pouco foram citados, deixando muitas informações subentendidas ou, até mesmo, esquecidas. Aliás, o pai de Callie é um personagem a parte que poderia ter sido infinitamente mais trabalhado, mas não foi. Na verdade, seu desaparecimento mal foi explicado. Assim como foi feito no final, em que os acontecimentos se deram de forma aleatória e sem nexo. Me senti perdida, chocada. Não sei o que sentir ou como expressar o sentimento de "é só isso?".
Quanto a diagramação, eu adorei a capa, mas sabe quando você não consegue ligar uma coisa a outra? O que tem a ver um par de asas com a história? Eu não faço ideia. Terminei a leitura sem entender essa ligação, mas confesso que fiquei curiosa, pois, por algum motivo, acredito que tenha algo a ver com os próximos livros, já que este é apenas o primeiro de uma trilogia que não possui data certa para ser complementada.

Sendo bem sincera, tirando a parte de uma distopia diferenciada, o livro não me trouxe nada positivo ou de conhecimento extra. Foi uma leitura para passar o tempo, e só. Eu adoraria ver uma releitura da história, em que a autora traz pontos interessantes sobre o sistema de memórias e sobre os demais personagens. Espero que, ao menos nos próximos livros, Pintip Dunn supere as expectativas.
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