27 julho 2017

Ela é de Touro

Ela vê graça nas miudezas da vida, na simplicidade de uma conversada jogada fora em meio a rotina estressante, na troca de olhares ternos de pessoas que se cumprimentam na rua e que nem mesmo se conhecem, nas mensagens inesperadas que colorem a vida de qualquer ser humano que se preze, nos bilhetinhos que aparecem como mágica em cima da mesa e que resultam em um sorriso de ponta a ponta. Ela é solta, dessas que ri por bobagem e fica com os olhos cheios de felicidade depois de ouvir a pior piada do mundo. Ela é dada, dessas que se aconchega em qualquer abraço apertado que aproxima corações cansados, porque, cá entre nós, não tem nada melhor do que um carinho.
Ela é séria, porque a vida não é feita somente de sonhos, mas a formalidade pouco aparece. Ela sabe ser de mil e um jeitos, afinal, o que podemos esperar de um indivíduo que usa pantufas bonitinhas pela casa e, dez minutos depois, está de terninho andando pela rua? Ela se molda e se transforma, sempre com um pé atrás e o outro dois passos em frente. Ela é de Lua, sempre contraditória e com a cabeça mais complicada do que se pode imaginar, mas não tem segredo, basta algum tempo para decifrá-la.

Ela é teimosa que só. Bate o pé sempre que distorcem seus ideais e não desmancha a carranca até que digam o contrário. Ela é de personalidade forte e possui tantas opiniões formadas que raramente encontra alguém capaz de rebatê-la, mas ela é mutável, lembra? Sabe o momento certo de arredar os móveis do lugar e fazer uma faxina, limpando todo e qualquer pré-conceito que não se encaixa mais. Ela escuta mais do que fala, talvez seja justamente por isso que se acha com razão.  
 
Mas quer saber de um segredo? Ela é maleável. 

Ela não sabe dizer "não". Se doa ao máximo, quase sempre sem esperar nada em troca, porque é da sua essência querer ver os outros felizes. Se quer saber, ela deixaria qualquer coisa jogada ao vento se for preciso acolher um amigo. Ela mantém o coração, a mente e os braços sempre abertos, prontos para receber o que quer que seja, apesar de esperar o melhor de quase tudo.

Só não se engane com os olhos caídos e a cara de poucos amigos, é que ela tem essa mania chata de ir pé por pé, torcendo para não pisar em um poço sem volta. Ela não confia nos outros e raramente coloca sentimentos ao vento. Talvez seja por conta disso que seus relacionamentos não duram. Ela é cabeça dura e não abre o jogo logo de cara, então as pessoas cansam e desistem. 
 
Mas, veja bem, ela quer justamente ver o contrário. Quer pessoas que lutem por ela. 

São tempos difíceis para os sonhadores, não é?
 
Ela é do tipo que mantém os pensamentos sempre na velocidade máxima. Sabe aquela cena dificílima de assimilar em uma história de romance de época? Pois ela decifra detalhe por detalhe e não deixa passar despercebido um fio de cabelo branco. Sua criatividade não tem limites e os dotes artísticos também não. Sempre se deu bem com papel e caneta em mãos, afinal, sua mente guarda tantas histórias quanto uma biblioteca pública de dois andares.

Só que ela também é perfeccionista, e isso estraga todo o seu trabalho. Ela gosta das coisas arrumadas e nada fora do lugar. Gosta de rotina e de rituais. Ela não pode ver um quadro torto que vai ficar encarando-o por um bom tempo, até se irritar, levantar como se não fosse nada e arrumar com perfeição. Ah, ela tem dessas!

Mas é contraditório, porque ela é uma bagunça ambulante.

Ela é de Touro, signo de terra regido por Vênus. Ela é filha do amor, mesmo que não compreenda metade do que possa significar essa palavra, porque, para ela, uma coisa tão incompreendida quanto deve ter um valor inimaginável. E ainda que não seja bem assim, ela cria sua própria crença e torce para que o mundo ao redor também pense dessa forma.

Ela é a pessoa mais desequilibrada que conheço.

Ela é só ela.

25 julho 2017

Victoria e o Patife, de Meg Cabot

Quando termino a leitura de um livro mais clichê, desses que a gente sabe exatamente onde vai parar, é que me dou conta do quanto gosto do comum para acalentar o cérebro. Apesar de amar histórias com reviravoltas surpreendentes e contextos inusitados, às vezes me pego querendo ler algo mais singelo, mais sutil e sem tantos detalhes, mas tão bom quanto. Eu nunca havia lido um livro da Meg Cabot, mas conhecia por completo todas as suas obras, assim como também reconhecia de longe sua escrita mais jovial e, ao mesmo tempo, remando para o lado do amadurecimento. Estranho, não? No entanto, agora posso dizer que pude me perder nas palavras da autora. Quando solicitei Victoria e o Patife, não imaginava que fosse criar uma afeição tão grande pela história, mas ela se aconchegou na minha lista de favoritos.
Estamos no ano de 1810. Victoria perdeu os pais muito cedo e foi criada pelos tios na Índia, um lugar nada propício para uma dama como ela, mas Vic aprendeu a tomar as rédeas da própria vida e até ensinou os bons modos para os homens da família. Se não fosse por ela, eles seriam tão indisciplinados quanto um animal selvagem. No entanto, com os famigerados 16 anos batendo na porta, os tios da moça sabem ela precisa procurar um marido que seja digno de seu posto. Victoria, então, parte para Londres, onde deverá morar com a família Gardiner até encontrar um homem à sua altura.

Título: Victoria e o Patife
Autor: Meg Cabot
Páginas: 256 páginas
Editora: Galera Record
❤ Livro cedido em parceria com a editora
Criada pelos tios na Índia, Victoria é enviada a Londres aos 16 anos para conseguir um marido. Mas é na longa viagem até a Inglaterra que a jovem encontra o amor, na figura de Hugo Rothschild, o nono Conde de Malfrey. Tudo estaria ótimo se não fosse a insuportável interferência do capitão do navio, Jacob Carstairs. Por que ele não pode confiar na escolha de Victoria? Por que ele não a deixa em paz? Estaria Hugo escondendo algo?
Apesar de Victoria parecer uma dama indefesa, ela sempre foi à frente do seu tempo, lidando com situações inusitadas que uma lady jamais pensaria em vivenciar. Mas seu coração ainda é imaturo, o que a faz cair de amores logo no primeiro contato com o nono Conde de Malfrey, um jovem bem-intencionado e com os aspectos mais lindos que Victoria já viu. Literalmente no meio do caminho e do mar aberto, ele a pede em casamento, mas os dois resolvem guardar segredo até que Hugo retorne de uma viagem que precisará fazer nos próximos dias. E assim seria feito, se Jacob não tivesse visto o momento íntimo do casal e começasse a atormentar a moça por sua escolha precoce.

Ao desembarcar na Inglaterra, Victoria é recebida de braços abertos pelos novos tios, mas logo percebe os olhares apaixonados de sua prima Rebeca para o capitão Carstairs. A dama, então, começa a colocar em prática um plano para interferir no coração da prima e fazê-la se esquecer desse amor, mas o que ela não esperava era que Jacob desse com a língua nos dentes durante o jantar, anunciando para a família sua escolha amorosa. Assim, entre ajudar a prima a se livrar de um futuro que poderá ser infeliz e tentar entender o motivo de Jacob ser contra seu noivado, Victoria se vê perdida entre sentimentos, fazendo loucuras que, mais tarde, nem ela mesmo será capaz de entender.
Victoria e o Patife é de uma premissa extremamente simples. Eu li algumas resenhas em que os leitores criticam a previsibilidade da história, afirmando que é um ponto negativo, caracterizando-a como própria para o público infantojuvenil, mas eu discordo até certo ponto, uma vez que qualquer leitor que preze pela sua sanidade mental precisa ler livros mais soltos de vez em quando. É claro que eu já critiquei alguns livros aqui no blog justamente por conta disso, mas desta vez não enxerguei como algo ruim, apenas como um descanso, uma vez que a história é muito bem construída.

A narrativa é feita em terceira pessoa e a escrita fluída da autora é perceptível em todos os momentos. Por mais que a história se passe em uma época distante, o humor também foi muito bem trabalhado e os personagens ganharam características únicas que conquistam o leitor. Além disso, um ponto super positivo é a representatividade do poder feminino na sociedade. Victoria é uma personagem forte e independente que encontra mil e uma soluções para os problemas visíveis. Por ela não ter sido criada com os mesmos costumes das damas da Inglaterra, seus novos tios e até os rapazes se sentem intimidados e horrorizados com algumas atitudes da moça, mas ela acaba se adequando à todas as situações sem perder a pose.
A diagramação do livro é simples, porém delicada, e a capa, mesmo sendo singela, ficou muito bonita. Por ser uma obra com poucas páginas, posso afirmar que a leitura é rápida e gostosa de acompanhar, já que os acontecimentos se desenrolam de forma contínua. No entanto, um ponto que me incomodou um pouco foi a resolução da história, que se deu muito lentamente. É como se autora quisesse estender um fato que já está marcado desde o início (alô previsibilidade!), incluindo novos problemas que poderiam ser facilmente excluídos do contexto. 

De qualquer forma, aos que querem começar uma nova leitura sem tantos fatos enrolados e com uma trama simples de ser interpretada, indico o livro de olhos fechados. A história me conquistou logo no começo e os personagens acabaram ganhando um pedacinho do meu coração. Aliás, o fato de a obra ser indicada para todas as idades é um ponto extra. Vale a pena conhecer Lady Victoria.

20 julho 2017

Minha Vida Fora dos Trilhos

Em clima de última semana de férias, vasculhei minha estante com todos os livros que preciso ler até outubro e separei os mais importantes. Alguns são romance, outros são suspense e ainda há aqueles que se encaixam em inúmeros outros gêneros. O primeiro a ser lido, por exemplo, foi Minha Vida Fora dos Trilhos, um recebido lindo da DarkSide que fez meu coração se portar com mais cuidado no fim da leitura. Ele foi escrito pela mesma autora de Em Algum Lugar nas Estrelas, livro da qual até fiz resenha aqui no blog. Apesar de abordar um contexto diferente, Clare Vanderpool trabalhou mais uma vez a perda de forma intensa e sensacional, misturando momentos presentes com lembranças detalhistas do passado, trazendo à tona o poder de uma boa história.
Abilene é uma garota curiosa e aprendeu desde cedo como é cuidar de si mesma. Seu pai, Gideon, trabalha em uma estrada de ferro em Iowa, por isso, quase sempre está ocupado, mas a menina adora suas historias sobre os tempos passados. No entanto, foi quando ela machucou os joelhos e ficou de cama por alguns dias que ele percebeu o quanto estava distante da filha e resolveu mandá-la para Manifest, uma pacata cidade do Kansas da qual viveu boa parte da infância. Abilene, então, pegou suas poucas coisas, juntamente com alguns recortes de jornais velhos e uma bússola antiga do pai, e partiu para longe em um trem, para morar por um tempo com um antigo amigo de Gideon.

Título: Minha Vida Fora dos Trilhos
Autor: Clare Vanderpool
Páginas: 320 páginas
Editora: DarkSide Books
❤ Livro cedido em parceria com a editora
Abilene Tucker tem apenas 12 anos, mas é corajosa e impetuosa o suficiente para encontrar aventuras na pequena cidade de Manifest, no Kansas, um fim de mundo para onde seu pai a enviou de trem para passar o verão sob a tutela de um velho conhecido enquanto ele trabalha em uma ferrovia. O que parecia ser o período mais solitário e entediante de sua vida, ganha um novo e surpreendente rumo quando Abilene encontra uma velha caixa de charutos com cartas antigas e pequenas lembranças de outros tempos. Aos olhos curiosos da menina, a caixa se torna uma verdadeira arca do tesouro, em que segredos enterrados conectam dois momentos da cidade.
Tudo que Abilene sabia sobre Manifest estava descrito nas colunas de Hattie Mae e nas histórias que Gideon gostava de lhe contar. Por isso, quando chegou ao local e conheceu Shady, o pastor que cuidaria dela na temporada de verão, assim como uma casa um tanto quanto sombria com letreiros que formavam a palavras PERDIÇÃO, a menina se viu perdida entre os pensamentos que alimentava toda vez que ouvia uma nova história. Então, quando descobriu uma antiga casa da árvore e uma caixa de charutos escondida, Abilene começou a entender melhor os fatos e os habitantes da região.

A caixa de charutos continha um mapa, uma rolha, um anzol, uma chave bonita, um dólar de prata e uma bonequinha de madeira do tamanho de um dedal, juntamente com inúmeras cartas que marcaram a trajetória de Ned e Jinx, dois amigos que foram separados pela guerra e que mantinham contato por meio de cartões postais. Em uma dessas cartas, Abilene ficou sabendo sobre O Cascavel e não contou tempo para começar a investigar sobre quem poderia ser. Para resolver o mistério, a menina contou com o auxílio de Ruthanne e Lettie, duas garotas da escola que deveriam ajudar a forasteira a escrever uma história para a Irmã Redempta.
Assim, as três começaram a procurar pistas que poderiam levá-las a um poço de respostas, mas tudo que Abilene encontrou foi problema. Em sua tamanha curiosidade, ela quebra um artigo valioso da Srta. Sadie, a vidente que mora na casa escura e sem vida com o portão da perdição, e perde sua bússola de ouro. Para quitar a dívida e receber de volta seu objeto precioso, a menina aceita trabalhar para a mulher. Mas é assim que Abilene fica sabendo sobre a vida de Jinx.

Uma vez que a Srta. Sadie sabe sobre tudo e sobre todos, a garota resolve explorar as lembranças e as histórias da vidente, passando a achar um sentido para os tesouros que encontrou na caixa de charutos, assim como outras surpresas que foram se formando com o passar dos dias de trabalho. Além disso, Abilene também começa a entender sobre o passado do pai em Manifest e as terríveis doenças que tiraram a cor da vida de alguns habitantes do lugar. Afinal, túmulos escondidos em lugares distantes e pessoas de olhares vazios precisam ter uma explicação plausível, ou, ao menos, um pouco sensata.

Minha Vida fora dos Trilhos é de uma narrativa simples e detalhista, exatamente como Clare gosta de nos apresentar. A escrita da autora é leve e foca em todos os pensamentos da personagem principal, trazendo à tona a sensação de descobrir o mundo pela primeira vez. Os capítulos são curtos e separados pelos lugares que Abilene visita, pelas histórias que a Srta. Sadie conta e pelos recortes dos jornais que a menina carrega ou encontra na redação com Hattie Mae. Confesso que a leitura de alguns capítulos acabaram se arrastando para mim, já que as histórias contadas são intensas, mas percebo que isso só fez o livro se tornar ainda mais rico em conteúdo.
Os personagens da obra foram criados com perfeição e todos carregam suas características únicas, mas admito que senti falta de mais detalhes sobre o pai de Abilene, mesmo que ele seja citado a todo momento. Acho que a autora poderia ter explorado um pouco mais a partida da menina, pois a história começa com ela já no trem, indo para Manifest, o que faz o leitor ficar um tanto quanto perdido, buscando alternativas para compreender o que acontece com Gideon ou com sua escolha de mandá-la para longe. No entanto, mesmo com essa falha, pude me identificar diversas vezes com os pensamentos ou sentimentos da menina.

Diferentemente de alguns livros lidos atualmente, Minha Vida Fora dos Trilhos me fez uma pessoa um pouquinho mais completa. Pude sentir as angústias de uma menina forçada a morar longe de quem ama, rodeada por pessoas estranhas. A história não é feita pelos acontecimentos, mas, sim, pelos personagens, o que a torna tão real e tão distante ao mesmo tempo. A autora, no final da obra, ainda cita cada ponto fictício e cada ponto verdadeiro que serviu de inspiração para a construção dos caminhos percorridos pelo passado descrito. Acho que todo mundo deveria e poderia ler o livro com grandes expectativas, pois ele as superará com certeza.
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